Análises de nematóides emitidas por laboratórios e comparados com tabelas de referências, não garantem sucesso das medidas de um manejo. O primeiro passo é realizar o correto diagnóstico e depois gerar uma recomendação para o aumento da produtividade agrícola.

Cuidados importantes sobre interpretação das análises de nematoides?

Olharmos os números dos relatórios das análises emitidas por um determinado laboratório e compararmos com uma tabela de referência, não garantirá o sucesso das medidas de manejo oriundas do trabalho de interpretação e de recomendação.

O primeiro passo para aumentarmos as produtividades agrícolas é o da realização de um correto diagnóstico. De posse do diagnóstico, uma recomendação deve ser gerada.

Existem alguns pontos em que devemos dar grande atenção pois podem nos induzir a um erro de interpretação que afetará diretamente o MANEJO INTEGRADO DE NEMATOIDES, resultando em consequências que levam à adoção de medidas de manejo ineficientes.

Dois importantes pontos de atenção!

Nível de infestação de nematoides

raiz de planta com infestação de nematóides
raiz de planta com infestação de nematóides

Em suma, as análises de nematóides nos revelam duas coisas: Quais nematóides pragas estão presentes na área e o quanto de problema eles podem causar. O primeiro aspecto traz uma característica qualitativa, ou seja, qual a espécie detectada. Em função dessa informação, poderemos indicar maneiras de se lidar com os problemas que elas podem causar. Mas quanto de problema elas podem causar? Em outras palavras, quanto diminuirá o rendimento da minha lavoura? Para respondermos isso, precisamos saber a quantidade existente. Tecnicamente, chamamos isso de nível de infestação. Quanto maior o nível de infestação, maior o potencial de perda de produtividade.

Saber qual(ais) espécie(s) presente(s) e seu nível de infestação nos leva a concluir se precisamos ou não tomar alguma atitude. Em caso positivo, qual atitude deve ser essa? De maneira muitíssimo resumida, temos aqui o processo de diagnose e recomendação.

No entanto, existem armadilhas que nos induzem a conclusões equivocadas.

Vejamos  2 fontes de erro neste processo:

  • Dados incorretos (informação apresentada na análise)
  • Interpretação incorreta a partir de dados corretos

1) Dados incorretos

A responsabilidade de que os valores apresentados nos relatórios das análises estejam corretos não recai totalmente sobre o laboratório. Principalmente quando falamos em termos quantitativos (nível de infestação).

Como é economicamente e tecnicamente impossível analisarmos todo solo e todas as plantas de nossas lavouras, uma ciência denominada estatística, criou uma ferramenta que nos permitiu solucionar esse problema. A ela chamamos amostragem.

Amostragem do solo para análise laboratoriais

Amostras coletadas

pequena amostra de solo com uma planta pequena no laboratório
pequena amostra de solo com uma planta pequena no laboratório

A amostragem nos permite dizer o quanto deve ter no todo tomando-se uma pequeníssima parte dele com exemplo. É o mesmo processo que vemos em época de eleições. Pergunta-se para uma certa quantidade de pessoas em quem elas vão votar e com cálculos estatísticos pode se afirmar qual candidato vai ganhar. Como exemplo, nas eleições municipais de 2015 em Salvador, o IBOPE entrevistou 602 pessoas para representar uma realidade de 1.881.544 eleitores (0,032% do total), segundo o TSE. Portanto, percebermos a importância de sabermos qual é o número mínimo de pessoas que devemos questionar, de onde devem ser estas pessoas e em qual momento perguntar. Esses pontos influenciam na famosa margem de erro informada pelos jornalistas, que no caso das pesquisas eleitorais estão em torno de 2%. Da mesma forma, nossa amostragem de solo, raízes e tecidos vegetais, deve seguir uma metodologia cientificamente testada e validada, para garantir que os resultados fiquem dentro de padrões aceitáveis de erro. Perceba que no caso das análises de nematóides não conseguimos medir qual é este erro, pois o controle da qualidade da retirada destas amostras recai sobre aquele que envia as amostras ao laboratório.

É muito comum haver conclusões totalmente equivocadas por conta disso, por exemplo, de amostras coletadas em uma fase não recomendada. Um caso frequente é a subestimação do nível de infestação por conta de uma amostragem muito precoce. Isso se explica pelo fato de os nematóides serem atraídos para as raízes por exsudados emitidos por elas. Esses exsudados nada mais são que substâncias químicas difundidas na solução do solo. Quando o desenvolvimento das plantas de uma lavoura ainda é inicial, temos uma quantidade muito menor de raízes e dessas substâncias, ou seja, o poder de atração ainda é baixo quando comparado ao estádio de desenvolvimento das plantas onde a quantidade de raiz é máxima, geralmente isso ocorre na época de florescimento pleno. Por isso que amostras coletadas nesta fase apresentarão um número potencial de nematóides significativamente menor. Contudo, se a pessoa que está interpretando a análise não tiver conhecimento suficiente, ou não estiver atenta para a informação do momento de coleta da amostra, pode ser induzida a uma conclusão errada.

O QUE FAZER? Neste caso, a responsabilidade do laboratório é apenas orientativa, esclarecendo qual é a metodologia correta de como as amostragens devem ser feitas. Contudo, para cada cultura existe a descrição de quando e como coletar corretamente as amostras.

Outra ação recomendada é que um profissional devidamente capacitado também verifique a coerência dos resultados com o que se observa no campo. Informações como cultivares plantados, rendimento nas últimas safras e sintomas visuais, são exemplos de questionamentos utilizados para esse fim.

Idoneidade do Laboratório

Profissionais competentes

pessoa no laboratório analisando amostra de solo pelo microscópio
pessoa no laboratório analisando amostra de solo pelo microscópio

Sim, podemos receber informações erradas.

Por isso, é fundamental que confiemos nossas amostras, coletadas com tanto custo e trabalho (diga-se de passagem), para um laboratório que treine e capacite regularmente e criteriosamente os colaboradores responsáveis pelos processos de identificação e quantificação dos nematoides da amostra.

O QUE FAZER?

Nos cabe verificar e confirmar a idoneidade e a capacidade do laboratório em manter uma equipe treinada e capacidade para tamanha tarefa. Os sistemas de certificações e selos de qualidade auxiliam, e muito, nessa escolha ao credenciar um laboratório. Uma boa referência é a norma ABNT ISO/IEC 17025:2017. Verifique se o laboratório para o qual pretende enviar suas amostras o possui.

Outra possibilidade é enviar ao laboratório amostras de checagem. Por exemplo, enviar ao laboratório 3 amostras provenientes da mesma amostra composta (teoricamente idênticas) e comparar os valores. Em caso de muita discrepância, deve-se discutir com o laboratório seus métodos de garantia de qualidade.

Pontos de atenção no momento da interpretação dos dados e recomendação

Resultados confiáveis

analisando amostra de solo com planta no microscópio
analisando amostra de solo com planta no microscópio

Observação: precisamos enfatizar aqui que a responsabilidade de se fazer o trabalho de interpretação e recomendação é de um técnico devidamente habilitado, e que o órgão que regula e fiscaliza estes profissionais no Brasil é o CREA. O que está exposto aqui é de caráter informativo. Com um certo tom provocativo, apenas colabora para o direcionamento de discussões que tragam benefícios diretos aos agricultores e demais envolvidos.

Dando sequência ao processo de interpretação dos resultados obtidos nas análises e de posse de resultados confiáveis, passa-se para a fase do diagnóstico.

Identifica-se se há ocorrência de espécies que são cientificamente reconhecidas como espécies que podem causar danos econômicos ao agricultor, os chamados fitonematoides patogênicos. Neste ponto não há muito espaço para erros pressupondo que o laboratório fez a identificação correta das espécies presentes na amostra. De forma geral, a ciência tem muito claro quais são as principais espécies problema. Mesmo assim, sempre devemos ter atenção para novas espécies de fitonematoides. A natureza é muito dinâmica e existe sempre a possibilidade de surgimento de novas espécies pragas. Vejam o caso relativamente recente de Aphelenchoides besseyi.

Em caso positivo, junta-se a este resultado a informação sobre o nível de infestação para o início da elaboração de uma recomendação. Essa é agora uma fase crítica do processo, pois análises com pouca profundidade fatalmente levam a conclusões precipitadas e com grande chance de erros. Neste momento é necessário se levar em conta vários aspectos agronômicos, e não somente comparar os resultados obtidos e apresentados nas análises com valores de referência científica apresentados numa tabela. O trabalho de diagnóstico envolve, necessariamente, uma fase de entrevista com os responsáveis pela lavoura para coleta de informações que vão se tornar evidências que, somadas aos dados das análises, permitem uma conclusão. Preferencialmente, deve-se visitar o campo com a cultura já instalada para observação de sintomas, se possível.

Resultado Da Análise + Entrevista + Observação De Sintomas = Diagnóstico

Antes de tudo, imaginemos uma situação hipotética em que o resultado da análise apontou 500 indivíduos de Pratylenchus brachyurus por 200 centímetros cúbicos de solo. Isso é muito ou pouco?

Se a informação viesse apenas como está descrito acima, consequentemente a pergunta inevitável seria: de qual cultura estamos falando? Pois, para cada cultura, existe um nível de patogenicidade e tolerância diferente. Vamos supor que a cultura em questão seja SOJA.

Lançamos mão do conhecimento científico apresentado como no exemplo da seguinte tabela, onde são apresentados valores de referência compilados de diversas fontes confiáveis:

tabela de parâmetros de analise de nematóides

Certamente, comparando nosso valor da análise (500) com a tabela, percebemos que o nível de infestação é considerado ALTO. E é aqui que o ERRO pode acontecer. É preciso frisar que esses são valores de referência. Eles nos dão uma ordem de grandeza do problema. Mas analisar este número de maneira isolada não é suficiente para a geração de uma boa recomendação adequada. Precisamos lançar mão de mais conhecimentos em aspectos relacionados aos seguintes assuntos:

  • Rendimento agrícola (kg/ha) almejado
  • Textura do solo
  • Disponibilidade de cultivares tolerantes
  • Possibilidade ou não de se fazer rotação de culturas
  • Soluções disponíveis

Vou apresentar dois cenários discrepantes para deixar claro o impacto que estas informações podem trazer.

Cenário 1 – Solo de textura argilosa, produtor simpatiza com variedade que apresenta certo grau de tolerância a esta espécie pois em algumas lavouras vizinhas apresentaram bons rendimentos. O produtor está disposto a investir numa solução que pode ser utilizada no tratamento de sementes e há histórico de um rendimento agrícola mediano na última safra. O agricultor quer aumentar o rendimento em 10%.

Neste cenário, apesar do valor elevado apresentado na análise, podemos optar seguramente por recomendar uma variedade tolerante, com um produto para o tratamento de sementes que ajuda na diminuição do nível de infestação e, consequentemente, nos danos causados pela praga. Se houver tempo hábil, pode-se recomendar ainda o uso de cobertura vegetais, como alguma espécie de crotalária com tratamento de sementes específico, buscando uma forma de inseri-la dentro do sistema de produção da fazenda antes do próximo plantio. Pensando em médio e longo prazos, essa ideia também pode e deve ser aplicada após as colheitas subsequentes.

Quadro 1. Reação das principais plantas de coberturas aos fitonematoides mais importantes

tabela de controle de nematóides

Fonte: EMBRAPA.

Quadro 2. Reação das principais plantas de coberturas aos fitonematoides mais importantes

tabela de controle de nematóides em diversas culturas

Fonte: Adaptado de Inomoto, 2018.

Cenário 2 – Um determinado talhão com solo de textura arenosa. Há disponibilidade de variedades tolerantes, mas que não tem histórico de altas produtividades na região. O agricultor não está bem capitalizado e tem restrições quanto ao nível de investimento para a safra em questão. A média obtida no talhão foi muito inferior ao mínimo aceitável, trazendo prejuízos ao agricultor. O objetivo do produtor é voltar a ter lucratividade neste talhão.

Mas agora temos uma situação completamente diferente e muito mais desafiadora! Para o mesmo nível de infestação, temos uma condição que favorece o desenvolvimento da praga e que nos coloca numa situação de risco muito maior. A recomendação neste caso deve ser muito mais cautelosa. Considerar, inclusive, o não plantio de uma cultura para exploração econômica imediata nos talhões com este índice de infestação, mas sim, o plantio de uma opção de cobertura vegetal que possa ser bem conduzida durante o período de safra para retornar o plantio da cultura na safra seguinte. Recentemente, essa alternativa tem se mostrado economicamente mais vantajosa em situações semelhantes. Também deve se considerar manejos mais drásticos, tal como a técnica de alqueive (revolvimento do solo).

Dessa forma, fica claro que é preciso olhar o sistema de produção de maneira holística, ou seja, temos que considerar os seguintes pontos: a) um período mais longo e evitarmos o imediatismo sempre que possível; b) todas as informações disponíveis (científicas e não-científicas); c) o desejo do agricultor. É esse o significado da palavra “integrado” quando usamos a expressão Manejo integrado de Nematoides. Cabe ao profissional responsável pela recomendação apresentar as opções técnicas e suas consequências de curto e longo prazos, considerando o maior números táticas de manejo. O sucesso dependerá da eficiência de um trabalho conjunto entre técnico e agricultor, para que seja prescrito soluções personalizadas para cada talhão dentro das propriedades. Nessa análise conjunta, é dever do técnico responsável levar em conta os aspectos ambientais, buscando soluções sustentáveis.

O QUE FAZER?

Buscar serviço de profissionais capacitados, evitando aqueles que trazem soluções prontas, como se fossem seguir receitas generalizadas. Não existe uma situação igual a outra. Os cenários são específicos. E, principalmente, as pessoas são diferentes umas das outras. É preciso fazer uma análise profunda e holística, levando em consideração todos as informações relevantes, juntando-se as evidências necessárias para uma recomendação consistente e eficaz. Também é preciso que o profissional responsável esteja constantemente acompanhando a evolução científica, pois novos conhecimentos surgem a todo momento.

Mensagem final

Manejo Integrado de Nematoides

pequenos frascos com amostras de solos diferentes
pequenos frascos com amostras de solos diferentes

Portanto deve-se conhecer os pontos críticos que nos levam a soluções ineficientes no Manejo Integrado de Nematóides nos ajuda no processo de obtenção de um bom diagnóstico e recomendação.

Notem que os erros são invariavelmente humanos. Cada um deve entender que possui um papel crítico e insubstituível neste processo. Entender quais são as suas responsabilidades é algo fundamental. Cabe aos agricultores garantirem uma amostragem de alta qualidade, ao laboratório garantir processos eficazes de capacitação da equipe e utilizar as melhores metodologias disponíveis, aos técnicos fazerem recomendações utilizando todas as informações disponíveis para um correto diagnóstico e geração de boas recomendações. Aos cientistas, cabe a busca incessante por novas e melhores soluções.

A todos cabe o desafio de se comunicar de forma eficaz e sinérgica.

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